MASSACRE NA BAIXADA FLUMINENSE

Dia 31 de março de 2005, quinta-feira, por volta das 20h, um rio de sangue com nascente num humilde Bar da Rua Gama numero 977, no bairro da Posse em Nova Iguau. Uma Barbrie que ningum gostaria de ter presenciado, nem ter escutado falar.

Um tiro na nuca. Preciso. Econmico. Covarde. Esse foi o preldio e o perfil da tragdia que vitimou 30 pessoas na Baixada Fluminense, a maior chacina da histria do Estado do Rio de Janeiro. Quando os quatro criminosos pararam seu carro, um Gol cinza, s margens da Rodovia Presidente Dutra, altura do Km 178, por volta das 20h da ltima quinta feira, j sabiam exatamente o que iam fazer. Abordaram dois rapazes, Rafael de 17 anos, e um outro, que voltavam do trabalho de bicicleta pela rodovia; atiraram na nuca de um e depois na nuca de outro; embarcaram no carro e seguiram sua viagem de matana.

Policias  da Policia Rodoviria Federal, ao chegarem ao local, disseram eles so profissionais. Economizaram munio no inicio da chacina para garantir que teriam at o final e para imprevistos que poderiam surgir no caminho.

Enquanto a Policia Rodoviria Federal chegava ao local dos dois primeiros assassinatos, os criminosos j haviam matado outras dez pessoas em Nova Iguau.

Com a mesma frieza e preciso, os criminosos mataram um homem, no identificado,  em uma das sadas da rodovia. Em um bar da Rua Gama, no bairro da Posse, a chacina fez outras nove vtimas, entre elas, trs crianas, perfazendo a maior quantidade de mortos em um mesmo local. A ausncia de marcas de tiros nas paredes e na fachada do bar demonstram o profissionalismo das execues.

No importavam se eram, homens, mulheres ou crianas. Eles vieram aqui para matar todos que estivessem na frente. Disse uma moradora local.

Uma das crianas mortas chegou a se esconder atrs de uma maquina de caa moedas do bar. Outra tentativa frustrada foi da prpria dona do estabelecimento, que correu para um beco escuro do outro lado da rua. Os assassinos cercaram a vitima e a mataram na hora.

Em Nova Iguau, outras trs pessoas foram vitimas em outros pontos, demonstrando a maneira aleatria com que os assassinos escolheram seus alvos.

Logo aps, o expresso da morte seguiu para Queimados, onde 12 pessoas foram assassinadas em diferentes pontos da cidade. No Centro de Queimados mataram quatro homens. Perto dali, em trs pontos diferentes, mais trs pessoas foram assassinadas, aumentando a contagem da chacina para 29 assassinatos.

A cerca de um km dos primeiros assassinatos, em Queimados, por volta das 22h, o Sr Francisco, 34 anos, comemorava com outros quatro amigos, dois deles menores, de 15 e 16 anos, o quarto ms de nascimento de seu filho. O que era uma celebrao da vida, acabou se tornando a tragdia da morte, quando o GOL cinza parou prximo ao grupo.

 

NEM DEUS ENTENDE. FOI UMA AAO VERDADEIRAMENTE DIABOLICA.

                       

Eu acredito que nem homem e nem Deus conseguem entender, de fato o que existe no corao das pessoas que cometeram esse ato. Foi uma ao verdadeiramente diablica disse o Bispo de Nova Iguau, Don Luciano Bergamin, que esteve na madrugada da chacina, no bar consolando as famlias

 

AS VITIMAS DA VIOLENCIA

 

MORTOS

30

VIVOS

02

MENORES

08

NO IDENTIFICADOS

02

IDENTIFICADOS PARCIALMENTE

01

02/04/2005 - 00h03
Os mortos da chacina

Jos Maxwell Malheiros Cerqueira
William Pereira dos Santos
Jos Gomes de Oliveira, 34
Luiz Henrique da Silva, 23
Jalton Vieira da Silva, 25
Elizabeth Soares de Oliveira, 43
Jonas Lima Silva, 19
Robson Albino, 25
Manoel Domingos Lima Pereira, 53
Leonardo da Silva Moreira, 18
Cesar de Souza Penha
Lenilson de Souza Coutinho, 28
Luciano de Souza Coutinho, 31
Francisco Jos da Silva Neto, 36
Marco Aurlio Alves, 45
Joo da Costa Magalhes, 52
Vagner Oliveira da Silva, 25
Marcos Joaquim Martins, 26
Lus Jorge Barbosa Rodrigues, 27
Fbio Vasconcelos, 29
Renato Azevedo dos Santos, 31
Calupe Florindo Ferreira, 64
Jos Augusto Pereira da Silva, 38

Tambm foram assassinados dois meninos de 14 anos, trs de 15, um de 13 e outro de 16.

Feridos
Leovaldo Roberto da Silva, 44
Kenia Modesto Dias, 27

 

Quatro vtimas de chacina so enterradas no Rio de Janeiro.

Da Folha On-line

No fim da tarde desta sexta-feira, quatro vtimas da cachina, que deixou 30 pessoas mortas na Baixada Fluminense (RJ), foram enterradas no cemitrio de Austin, na regio de Nova Iguau.
As vtimas foram reconhecidas como: Jonas de Lima Silva, 19, Elisabeth Soares de Oliveira, 45 --ela era esposa de Caque, dono do bar onde morreram oito pessoas. Os outros dois mortos so dois adolescentes de 12 e 14 anos.

 

A Polcia Civil divulgou os nomes de todas as vtimas.

 

 

Homens de farda flagrados

Cmeras registraram grupo que chega rua atrs do batalho de Caxias em patrulha. Depois, cabea foi lanada no quartel

O desafio ao poder pblico e s autoridades policiais da Baixada Fluminense comeou na madrugada de quarta-feira, quando criminosos arremessaram uma cabea humana por cima do muro do batalho de Caxias. As imagens das cenas de terror foram flagradas por uma cmera instalada em uma escola particular prxima ao batalho. O DIA teve acesso s imagens, que mostram a ao dos assassinos, por volta das 4h30.

Apesar da baixa qualidade, possvel identificar oito homens, sete deles fardados, atravessando a rua de um lado para o outro. Mesmo com a movimentao de moradores, dois deles carregam um saco preto retirado de um Gol da PM, com muita dificuldade, sugerindo que esto transportando algo pesado. Em seguida, chega mais um carro da corporao, com dois homens fardados.

A escurido no permite que sejam identificadas as placas e numeraes dos veculos. Manchas de sangue encontradas nos bancos traseiros de dois Gols do batalho sero comparadas com material dos corpos das vtimas. Ontem, o juiz Paulo Csar Vieira de Carvalho, da 4 Vara Criminal de Caxias, decretou a priso temporria por 30 dias de oito policiais do 15 BPM (Caxias) suspeitos de lanar a cabea na unidade militar. O pra-brisa dianteiro de uma Blazer da corporao foi atingido.

Uma das hipteses para a motivao da chacina a priso administrativa dos PMs, quarta-feira. O restante do corpo, esfaqueado, foi deixado na Rua Jorge Vieira de Medeiros, no bairro Centenrio, atrs do batalho, ao lado de uma segunda vtima no-identificada, que tambm estava com a cabea cortada.

Patrulha da Polcia Militar estaciona em rua atrs do batalho de Duque de Caxias. Homens fardados atravessam a rua e, depois, retiram saco preto


Imagens mostram ainda que a patrulha se afasta, mas os homens continuam reunidos do outro lado da rua. Ao acontece por volta das 4h30

 

Vingana de maus policiais

O secretrio de Segurana Pblica, Marcelo Itagiba, acredita que a ao dos autores da chacina em Queimados e Nova Iguau, alm do episdio em que policiais jogam a cabea de um homem dentro do batalho de Caxias, so retaliaes contra as medidas rigorosas adotadas para punir PMs que cometeram desvios de conduta.

Houve uma seqncia de fatos na Baixada Fluminense, como a substituio de alguns comandos, a priso de PMs pelo comandante de Caxias por envolvimento em crime e outros casos em que h comprovao de policias militares em homicdios. Portanto, no podemos descartar essa possibilidade como reao de maus policiais, afirmou Itagiba.

Segundo o secretrio, as punies passaram a ser aplicadas com a Operao Navalha na Carne, destinada a identificar e expurgar das corporaes todos os que desonrarem as fardas e os distintivos por envolvimento com crimes.

Considerado um dos comandantes mais rigorosos com a conduta da tropa, o coronel Paulo Csar Lopes, do 15 BPM (Caxias), temido por seus subordinados. Tem muita gente l na fila, aguardando priso, conta um PM, que no quis se identificar. A postura do comandante tambm foi reconhecida pelo inspetor-geral da Secretaria de Segurana, Joo Carlos Ferreira. Ele um oficial com perfil disciplinador.

Depoimentos

Quero viver longe da Baixada

Luiz Paulo Vieira, vendedor autnomo, 33 anos

No consegui dormir um minuto sequer esta noite. Foi o pior dia da minha vida. As cenas dos quatro corpos no interior do lava-jato no me saem da cabea. Todos eram conhecidos e muito queridos no bairro. No conseguimos justificativa para tanta covardia. Vou embora deste lugar com minha famlia assim que puder. Quero viver longe da Baixada, embora ache que no exista mais lugar seguro.

Vou trabalhar em outro lugar

Vou continuar com bar, meu ramo de trabalho. Mas l, no. Vou trabalhar em outro lugar. Tenho minhas dvidas para pagar. Vou fechar uns cinco dias para depois pensar no que vou fazer e procurar outro canto. Eu e a Elizabeth sempre trabalhamos juntos. S dava ns dois. O medo dela era eu morrer antes. Era cheia de problemas, era diabtica, doente. Acabou ela indo, e eu ficando.

Carlos Henrique Paulino de Assis, comerciante, marido de Elizabeth

Moradores da Baixada lamentam a volta da violncia em excesso na regio e esperam solues

No de hoje que a Baixada se destaca pela violncia, que precisa ser combatida. Infelizmente a morte de um homossexual no novidade no Brasil, onde um morto a cada dois dias. Na Dutra (Rodovia Presidente Dutra) comum atirarem nos travestis.

Eugnio Ibiapino, Da Associao Tringulo Rosa

Esta uma Baixada antiga onde a violncia gratuita insiste em imperar. Espera-se que essas mortes absurdas sejam smbolo de uma nova vida, em que impere o amor e a paz.

Padre Renato Chiara, fundador da Casa do Menor So Miguel Arcanjo

A chacina prova do desequilbrio do homem. Essas atitudes refletem falta de religiosidade. preciso que religies se unam para que seja restaurado o equilbrio e aes de combate a violncia sejam eficazes.

Marcelo Fritz, Coordenador-geral do Instituto Cultural de Apoio e Pesquisa s Religies Afro

Que triste que tudo isso acontea. Mas no vamos calar. Queremos expressar que esta terra merece a vida. Esse povo merece ser feliz. Estas coisas so insustentveis. No so mais possveis.

Dom Luciano Bergamin, Bispo de Nova Iguau

Nesse primeiro momento ns moradores da Baixada estamos com medo. As pessoas no sabem porque esto morrendo. Acho que a Polcia Federal deveria intervir na regio.

Advogado Joacyr Coelho dos Santos, Do Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguau

Agora, parentes das vtimas precisam mais do que nunca da solidariedade e da presena do governo e da sociedade organizada. O padro na Baixada o da violncia gratuita.

Rubem Cesar Fernandes, Diretor do Viva Rio

 

Prefeito sugeriu enterro coletivo

O prefeito de Nova Iguau, Lindberg Farias (PT), tentou organizar ontem um enterro coletivo das vtimas da chacina, por conta da prefeitura. O local seria o Cemitrio de Austin, que atenderia tambm a famlias das vtimas de Queimados. Chegou a ser especulado tambm um velrio coletivo na catedral de Nova Iguau.

O vice-presidente da Comisso de Direitos Humanos da Cmara dos Deputados, Chico Alencar (PT), classificou a chacina como ao monstruosa. Foi uma atitude de sub-seres humanos que tm compromisso com a morte, disse. Alencar contou que o caso teve repercusso internacional. Na tera-feira est prevista a visita de representantes da Anistia Internacional ao Rio para discutir relatrios sobre crimes e grupos de extermnio.

Na segunda-feira, ser proposta a criao de uma comisso na Cmara dos Deputados para acompanhar a investigao da chacina. A comisso ser integrada pelos deputados Chico Alencar, Antnio Carlos Biscaia (PT) e Fernando Gabeira (sem partido).